Aquela dama violenta e errante suga o Sol e seca, cristalizada, travando tremores e ofuscando deuses. O ruído concede o sucesso da prosperidade da terra. Os frutos frutificam, as flores florescem, as raízes renovam a vida em um terrível ato de Amor, o mundo mundaneia. A juventude vazia, prole privilegiada, dispara pela areia, corta o céu, carrega consigo a sede de excelência. Com quantos pulmões se faz uma cidade? O néctar derrama sobre corpos que cantam por venenos ancestrais, erguem monumentos para os cumes e as copas das árvores que brotam em versos que não se esgotam, apesar dos esforços. Querem mais. A terra derrama sobre os seus incontáveis filhos o ardor do verão, o agudo do inverno, a iridescência da primavera e a resignação do outono, tudo em um dia.
A criança chega de punhos cerrados, menina ainda fresca com os nós dos dedos apertados, anunciando a lua cheia que paira sobre esse mundo. Ela cresce rápido demais, as mãos já calejadas e firmes dançando pela horta. Colhe frutos e frutas, torce o pano farto de plantas até o suco escorrer pela pele até a cumbuca. Esse simples gesto com as mãos causa alumbramento nas meninas. O suco é de um verde-vivo que anima o céu da boca. Corpos estremecidos. A palavra percorre a cidade como a flecha do tempo. Desagrada os arqueiros.
Aquela criança petulante que queima cada centímetro dos frágeis corpos com precisão, infiltra as casas, arrebenta as dobradiças. Forças opostas se desenham na cartografia da cidade. A amiga gentil leva o título de temerosa, perigosa, impossível, imprevisível. Súplicas para que seja erradicada fervem nos lábios dos colhedores de maçãs, dos que empunham o arado feito lanças para fisgar peixes, os pobres pastores. Súplicas, não mais que súplicas. Desprezíveis no começo, impensáveis. A fogueira queima com a carne suave e aveludada dos animais mais bem alimentados da terra. As vacas não bastam. Os bodes não bastam. Os porcos, as lebres, os cães, os gatos, os pássaros. Nada basta. É o que dizem.
Sapateiros, carteiros, carpinteiros, as tias, as avós, as noivas e as juízas, rouxinóis, pequenos répteis, as línguas limítrofes que podam as margens e desenham o atroz impensável. Tramam o mal acreditando falar somente o justo.
As que um dia a admiraram cobrem os olhos com o pudor.
A amiga gentil se envereda pela floresta, costura experiente por entre os troncos das árvores. Voa pelo vento, urge gotejante, lamenta o caminho sem volta. Ela se demora pela sebe alta, os pés abrem os caminhos não trilhados. Enquanto a noite encobrir as virgens, as musas, os filhos de todos os tons de cor com olhares e cuidados, o dia da destruição é afastado. O instante se perde decadente. Seus pés de andanças incansáveis sangram sujos, arrastam blasfêmias para as salas de jantar. A terra está morrendo.
Ela grita para que migrem os pássaros, as nereidas, ninfas e fadas. Criança louca de nome maldito. Ceifam sua língua, podam suas madeixas. Condenada às colinas, aos topos das montanhas.
Os loucos de mente e de coração saltam. Vagam. A amiga mergulha os dedos na terra, quer ser sugada pela terra, engolida pelas plantas para se diluir pelos ares. Flor frágil chora a destruição insaciável. Vive feito semente encolhida por horas, meses, séculos. Um dia, uma sombra cala o silêncio. Aquela que chamam de insensata, desatinada, laurívora chega carregada por anjos, luz ofuscante do desejo. Chama seu nome. Estende a mão.
Ao som do pandeiro e ao toque da ambrosia na língua, ministrada em colher de madrepérola, o rosto da amiga enrubesce. Em vestes púrpuras, poda as roseiras e resgata a refrescante água das profundezas da terra. Membros firmes sustentam as preces de boa sorte. A maravilha dos grãos de café, torrados pelo Sol, inundam o peito. No fluxo, ela explora o céu com uma luneta, longa e fina, sem pretender roubar as asas e deslumbrar se com o veludo rico e negro da noite, vil desejo do retorno que se extingue pela paixão do sono, dos sonhos.
A anciã multissábia conta histórias sobre a descida da Lua à gruta da Terra para encontrar seu Amor. Revela a ela os segredos, profética, liberta das amizades vagabundas que cultuam a infâmia. A criança-amiga rememora, pálpebras cerradas, os feitos dos faunos na terra que ainda prospera, as cirandas e santas que abençoaram a passagem do tempo. Uma estrada de palavras douradas dança desavisada na língua da mulher, pesada feito estrela, madura além do corpo.
As flechas dessaboradas da ingratidão atingem um a um os sedentos pelo espetáculo da caçada. A prosperidade abandona a prole. Cidade-assassina monstruosa, que de seca cristalizada seca o solo, as goiabeiras e suas goiabas, os abacateiros, limoeiros, laranjas de todos os tipos, mangas, maçãs, figos, carambolas, aceroleiras e cajueiros. Torna cinza plantações inteiras de tomate, cebola, batata, milho, aipim, cenoura, chuchu, pimentão. Aniquila begônias, alfazemas, orquídeas e bromélias. Some com o orvalho, bane os bichos. A terra devolve a violência.
As raízes das árvores dobram de tamanho e arrebentam telhas, azulejo, ladrilho e vitral. Devoram casas, se esticam rumo aos céus, folhas amareladas e alaranjadas filtrando o Sol em galhos e ramos. Com os corpos sugados dentro de casa, as famílias enfrentam a fome, a seca, a solidão, e a crueldade dos que desejam a dominação. Corpos de mulheres são esticados, entortados, atrofiados, forçados às sombras. Corpos de mulheres engolem fivelas. Guardam a memória do mundo. Enchem os pulmões de ar.
Quando as meninas da cidade se lembram de sua amiga, lembram antes daquelas mãos torcendo o pano para coar o suco das maçãs recém-colhidas, do caule verde das couves, das sementes macias dos pepinos, dos grãos germinados, do perfume da hortelã, do gosto da chicória, do laranja-vivo da cenoura, da tinta das beterrabas nas mãos.
As meninas começam a narrar suas memórias, preenchendo de sonhos os cômodos das casas tomadas. Não sonham para abandonar as ruínas, mas para respirar junto das raízes, criar forças para escalá-las, deslizar pelos troncos das árvores e sentir a pele áspera, se aninhar na copa das árvores e dar as mãos por baixo da terra, o corpo estremecendo, avivando a rede subterrânea que ilumina a vida, artérias de cogumelos que resistem, formigas que continuam sua caminhada. Tudo isso diante dos olhos, tudo isso dentro dos pulmões. O gesto de abraçar com palavras. Energia vital que mora dentro das mulheres.
De dentro da escuridão das casas, a cidade olha pela janela e vê a Terra.
ASHLEY POLONEA nasceu no Rio de Janeiro em 1998. É tradutora, mestranda em Estudos da Linguagem pela PUC-Rio e graduanda em Filosofia pela UNIRIO. Acredita no poder da palavra de fazer sonhar e criar mundos respiráveis.